3046 - Ilustração de Amílcar Monteiro

 

Victor cumprimentou os dois militares que guardavam a sala e, suspirando, deu uma breve explicação sobre ter de verificar umas questões de segurança de que um colega se tinha esquecido. Apesar de, em dias de viagem, a equipa de cientistas chegar à base apenas às sete horas da manhã e serem ainda seis, os guardas sabiam perfeitamente que Victor Varszt era um dos principais físicos da equipa, pelo que nada lhes pareceu suspeito. Retribuíram o cumprimento, sorriram e deixaram-no passar.

De seguida, Victor praticou o ritual necessário para que a porta da sala abrisse: inseriu o código de nove dígitos, validou a impressão digital do polegar e, finalmente, deixou o scanner fazer uma análise da sua retina. A porta deslizou, dando acesso a uma antecâmara na qual ele entrou, para logo se voltar a fechar. Na antecâmara, um sofisticado sistema analisou o seu ADN e, após a confirmação de que se tratava do código genético de Victor Varszt, uma nova porta abriu-se, revelando a sala onde estava a máquina do tempo.

Depois de duas décadas de desenvolvimento, a máquina tinha sido enfim concluída há um ano, com a primeira viagem realizada há apenas sete meses. Como defendido por algumas linhas da Física Quântica, revelava-se impossível viajar para o passado, mas para o futuro já se tinham realizado oito viagens. Apesar do sucesso dos saltos temporais e da informação recolhida, existiam ainda dois fenómenos que nenhum dos cientistas conseguia explicar. O primeiro era o facto de terem sido construídas várias réplicas absolutamente idênticas da máquina mas, por algum motivo, nenhuma delas funcionar. Manipularam-se diversas variáveis, mas sempre sem sucesso; apenas a máquina original funcionava.

O outro fenómeno era ainda mais enigmático: o período máximo de tempo que a máquina permanecia no futuro era precisamente 31 minutos e 27 segundos. Depois disso regressava, sem que nenhuma instrução tivesse sido dada. A equipa tinha descoberto isso da pior maneira, após terem perdido um dos primeiros viajantes do tempo que nunca voltou porque, calculavam os cientistas, se encontrava no exterior da máquina quando o tempo limite fora atingido. Uma viagem de resgate, realizada poucas horas depois da máquina retornar, mostrara-se incapaz de o descobrir.

Esses fenómenos eram um dos principais motivos pelo qual Ernest Schollebakke, o físico responsável pelo projecto, nunca permitira que os saltos temporais ultrapassassem os 75 anos. Ele considerava que a exploração temporal era muito recente e que existiam ainda bastantes incógnitas, pelo que o melhor era não arriscarem demais até terem uma compreensão mais profunda de como tudo funcionava.

Mas Victor Varszt não era da mesma opinião e no dia anterior, na última reunião antes da próxima exploração temporal, tinha tentado uma vez mais convencer o Professor Schollebakke a irem mais longe, a viajarem 500 anos no futuro. Porquê obter conhecimento com poucas décadas de distância, quando podiam obter com vários séculos? Quem sabe que tecnologia encontrariam? Que mistérios desvendariam? Como sempre, Schollebakke repudiou a ideia, classificando-a como imprudente mas, daquela vez, não se tinha ficado pela mera reprovação: num acesso de cólera, humilhara Victor à frente de todos os colegas e generais, gritando que estava farto da sua insistência, que não podia ter na sua equipa alguém tão irresponsável, alguém tão obcecado em adquirir conhecimento que ignora todas as precauções e cautelas. Vociferou que quem agia assim eram os loucos ou as crianças e avisou-o que se ouvisse uma vez mais aquela sugestão vinda da sua boca, o expulsaria de imediato da equipa.

No momento, Victor controlou-se para não responder, mas pensou que o assunto não acabaria ali. Sim, não era o chefe da equipa, e também não tinha tanta experiência como o septuagenário Schollebakke, mas sabia muito bem o que dizia. Tinha 47 anos, dois pós-doutoramentos, era uma das principais referências na área da Mecânica Quântica, já chefiara alguns projectos e a sua mente era uma das que mais contribuíra para o desenvolvimento da máquina. E se mesmo assim a sua opinião era considerada infantil e inconsequente, então restava-lhe provar que estava certo. E para o fazer não precisaria da ajuda de ninguém: chegaria mais cedo à sala da máquina e ele próprio faria o salto temporal, tornando-se no primeiro homem a trazer conhecimento do futuro mais distante.

Agora dentro da sala, começou a executar o seu plano. Despiu a roupa e vestiu o fato utilizado pelos astronautas nos saltos, um fato térmico e resistente, preparado para enfrentar condições adversas. Enquanto o fazia, contemplou a maravilha científica que era a máquina do tempo: um objecto cilíndrico com três metros de altura por dois de diâmetro – com espaço para uma pessoa e pouco mais –, construído como uma cápsula espacial, com controlo antigravitacional, fechaduras herméticas e atmosfera artificial com oxigénio para vários dias. E Victor dominava todo o seu funcionamento, por dentro e por fora. Por isso mesmo, sabia que a parte mais complexa do salto residia na programação prévia, já que uma vez no interior da máquina tudo era bastante linear: bastava premir um botão que a fazia rodar sobre si mesma, a uma velocidade cada vez maior, até desaparecer num intenso clarão e aparecer no ano e local programados. Para o regresso, ou carregava no mesmo botão ou aguardava que a máquina regressasse autonomamente quando atingido o tempo limite.

Quanto ao salto temporal em si, sabia pelos relatos dos viajantes anteriores que não era algo fisicamente exigente e que não provocava grandes efeitos no corpo. Segundo eles, durante a rotação da máquina ocorria uma perda de consciência e quando recuperavam os sentidos, já no futuro, experienciavam náuseas e vómitos, bem como uma desorientação temporo-espacial que durava poucos minutos. É verdade que Victor não tinha o treino dos astronautas, mas estava em boa forma física e considerava-se suficientemente apto para lidar com esses pequenos efeitos.

Depois de alguns minutos a cumprir o protocolo de preparação, chegou à etapa final do processo: a definição das coordenadas. Para as coordenadas espaciais, seguiria o que tinha sido feito nas viagens anteriores e enviaria a máquina para um terreno amplo e desimpedido, nas instalações da base militar em que se encontrava. A lógica dessa escolha era a de que seria mais seguro, já que se tratava de uma área de investigação governamental ultra-secreta e, como tal, menos propícia a alterações no futuro. Mas o local para onde ia pouco lhe importava de momento, aquilo que verdadeiramente interessava era o último passo, as coordenadas temporais. Com um brilho nos olhos, definiu 500 anos no futuro mas, quando se preparava para confirmar tudo, viu os dígitos no ecrã e hesitou. 500 anos. Porquê 500 anos? Porquê 500 anos? Esboçou um esgar travesso e acenou com a cabeça. Depois, introduziu o número 1000 e confirmou. O seu destino seria 3046.

Foi buscar uma mochila com o equipamento habitual – um cantil cheio de água, três barras energéticas e um tablet multifuncional de registo e análise – e colocou no pulso o relógio sincronizado com o temporizador da máquina, para saber sempre quanto faltava até atingir o tempo limite. Estava quase pronto para iniciar o salto, faltava apenas o toque final. Dirigiu-se ao casaco que despira e tirou um envelope do bolso interior, que depois deixou em cima do painel de controlo da sala. O envelope estava endereçado a «Guru Schollebakke» e continha um papel cuidadosamente dobrado em três, no qual se podia ler:

Caro Ernest,

Apesar do preço exorbitante a que está o papel, considerei que seria o meio mais indicado para lhe deixar esta mensagem, já que se trata de um material tão antiquado e ultrapassado como o senhor.

Calculo que, por esta altura, já deva ter percebido que levei a máquina a dar um passeio, mas não para o futuro próximo, como você pretendia. Eu optei por tornar-me no primeiro homem a conhecer o nosso futuro longínquo. E você e os seus lacaios nada poderão fazer para o evitar.

Encontramo-nos daqui a uns minutos, meu velho, quando eu regressar com conhecimento inimaginável que transformará a forma como percepcionamos a vida e o universo. Até lá, aproveite para descarregar a raiva e a frustração que está a sentir no seu séquito de cobardes.

O destemido pensador e explorador temporal,

Victor Varszt

Olhou para o relógio da sala e viu que faltavam 20 minutos para as sete horas. Perfeito. Quando Schollebakke e os outros colegas chegassem, depararam-se-iam com a carta e ainda teriam de ficar 11 minutos à espera que ele regressasse. Sem mais demora, entrou na máquina, fechou a porta e rodou a alavanca que fazia a compressão hermética. Sentou-se na cadeira, prendeu os cintos e respirou fundo, tentando acalmar a ansiedade que entretanto se instalara. Estava preparado. Esticou o braço e pressionou o botão.

A máquina iniciou um movimento de rotação lenta, que Victor aguentava sem problema, mas poucos segundos depois o movimento de centrifugação acelerou e ele começou a sentir a pressão no corpo. Era bem mais forte do que esperava. Agarrou-se com firmeza aos braços da cadeira e arregalou os olhos. A pressão aumentava cada vez mais, começando a tornar-se insuportável e, quando a sua cabeça parecia prestes a rebentar, Victor perdeu os sentidos.

Quando voltou a si, a máquina já não girava como antes, embora ele ainda a sentisse rodopiar. Estava zonzo e desorientado, sem noção de onde se encontrava ou do que se passava. Sentiu algo a prender-lhe o peito e, quase por reflexo, desapertou os dois cintos que o prendiam. Ao mesmo tempo, apoderou-se dele uma forte náusea que o fez vomitar durante alguns minutos. Gradualmente, a indisposição foi passando e ele foi ganhando consciência que estava dentro da máquina e que tinha saltado no tempo. Então, olhou para o painel e viu que o mostrador indicava o ano de 3046. Sorriu. Tinha conseguido: era o primeiro homem a viajar 1000 anos no futuro.

Um feito notável, sem dúvida, mas que não bastava. Tinha de explorar e adquirir o máximo de informação útil que conseguisse, pois só assim demonstraria que a sua visão estava certa. Seguindo o protocolo de segurança estabelecido, premiu a sequência de botões que abria as protecções exteriores da janela da máquina, a fim de perceber como era o ambiente em redor.

À medida que as protecções se abriam, a expressão do seu rosto transfigurava-se para uma de estupefacção: tudo o que conseguia ver era um manto negro polvilhado por pontos luminosos. Olhou em redor, procurando alguma outra referência, mas a paisagem era sempre a mesma. Atónito, percebeu que se encontrava à deriva no espaço sideral.

Franziu o sobrolho, procurando uma explicação para a situação em que se encontrava, e rapidamente concluiu que se devia tratar de um erro nas coordenadas. Será que com a adrenalina de viajar 1000 anos no futuro e mostrar a todos que tinha razão, se enganara a introduzir as coordenadas espaciais? Não! Não podia ser! Depois de todo aquele plano, dos insultos que escrevera na carta, seria ridículo regressar sem qualquer conhecimento apenas porque se tinha enganado! Seria o alvo de chacota de toda a comunidade científica! Furioso consigo mesmo, olhou para o painel, tentando perceber o seu erro, mas logo se acalmou ao verificar que tinha inserido as coordenadas correctas. Mas se as coordenadas eram aquelas e não havia ali nada, então isso queria dizer que… A Terra tinha sido destruída. Engoliu em seco. Sim, era isso, o planeta já não existia… E será que a Humanidade também tinha sido eliminada? Ou será que antes disso tinha conseguido fugir e povoar outros planetas?

Permaneceu em choque durante alguns momentos, até que o horror inicial foi substituído por uma alegria incipiente. Daqui a 1000 anos, o planeta terá desaparecido e, quem sabe, a Humanidade também. Era uma descoberta absolutamente incrível e ele era a única pessoa que o sabia. A sua determinação permitiria avisar a Humanidade da futura destruição e, graças a isso, talvez conseguissem evitá-la! Tudo porque ele arriscara ir mais longe! Seria, para sempre, o responsável pela salvação do planeta! Chamaram-no de louco e criança; agora teriam de chamá-lo de visionário e herói. Victor Varszt: cientista, explorador, herói! Soltou gargalhadas de júbilo.

Pois bem, agora era regressar e esfregar a sua descoberta na cara de Schollebakke e de todos os outros medrosos que o criticaram. Empolgado, preparava-se para iniciar os procedimentos de regresso, quando olhou para o relógio do painel de controlo. Estava no futuro há pouco mais de nove minutos, pelo que nenhum dos seus colegas devia ainda ter chegado à sala. Não podia regressar sem que eles lá estivessem, isso diminuiria toda a sua glória. Victor queria que eles chegassem, que entrassem em pânico com a ausência da máquina, que lessem a carta e se apercebessem que viajara 1000 anos no futuro, e que depois ainda tivessem de esperar algum tempo pelo seu regresso. Queria deixá-los na expectativa, fazê-los sofrer por antecipação. Não, não retornaria já ao presente, aguardaria pelo tempo limite da máquina. Assim não só os deixaria apreensivos, como também poderia saborear a vitória antes de toda a comoção que certamente se instalaria quando revelasse a sua descoberta. E, claro, poderia fazer uma entrada triunfante.

Tirou da mala o cantil e uma barra energética, cruzou a perna e recostou-se, regozijando com as caras que os carneiros dos seus colegas fariam quando contasse o que sabia. Takinawa, Lobotov, Karlsson, Whitman-Moore. Todos vermes sem um único quark de coragem no corpo, ratos de laboratório com medo de tudo o que envolvesse um risco maior. Ridículos. Trincou a barra e bebeu um pouco de água. Pôs-se a imaginar os cenários que poderiam acontecer quando regressasse e ocorreu-lhe que devia escolher as exactas palavras que proferiria quando saísse da máquina. Afinal de contas, seriam recordadas para sempre.

Depois de alguma reflexão, optou por um discurso com um toque inspiracional, algo que ficasse bem nos manuais de História, quando o recordassem como o homem que descobriu o fim do mundo. Sairia da máquina e, em silêncio, varreria a sala com o olhar durante alguns segundos, para aumentar o suspense. Depois, num registo solene, diria: «Caros colegas, caros irmãos, chegou a altura de nos unirmos como nunca. Chegou o momento de usarmos a ciência e todas as nossas capacidades para evitar o terrível destino com que me deparei dentro de 1000 anos. Só a conjugação das duas mais nobres características humanas, o pensamento científico rigoroso e o destemido espírito de exploração – e aqui fixaria directamente Schollebakke, em subtil provocação –, poderá salvar-nos da destruição total do nosso planeta e, talvez, da aniquilação da raça humana!». Um discurso épico, digno de um herói. Sorriu de satisfação.

Aproveitou também para conjecturar algumas explicações para a eliminação da Terra, bem como possíveis linhas de intervenção para o evitar, pois assim apresentaria logo algumas hipóteses quando chegasse, estando um passo à frente dos seus colegas. Agora que era quem mais conhecimento detinha sobre o futuro e que mostrara estar correcto ao insistir em viagens mais longínquas, existia a forte possibilidade de substituir Schollebakke na coordenação da equipa ou, pelo menos, teria sólidos argumentos para exigir ao governo a sua própria equipa de exploração temporal. Com um pouco de sorte, conseguiria até cunhar um termo com o seu apelido para caracterizar o terrível destino da Humanidade. Qualquer coisa como… A Hipótese de Varszt. Não, não fazia sentido. A destruição do planeta não era uma hipótese, era um facto comprovado. E se fosse A Descoberta de Varszt? Hummm, também não. Demasiado generalista e vago, sem explicar do que se tratava. E que tal O Futuro de Varszt?  «Temos que evitar o Futuro de Varszt!» «É imperativo compreender o que originou o Futuro de Varszt.» Sim, esse parecia óptimo.

O seu pensamento foi interrompido pelo alarme do relógio, avisando que faltava um minuto para a máquina regressar. Muito bem, estava na altura. Endireitou-se na cadeira, poisou o cantil e o invólucro da barra energética e iniciou o protocolo de regresso: fechou os painéis de protecção das janelas, apertou os cintos de segurança e preparou-se para a intensa pressão que aí vinha. Faltavam agora dez segundos para o tempo limite ser atingido.

Dez. Nove.

Respirou fundo. Estava pronto para o seu momento de glória.

Oito. Sete.

A máquina começou a rodar sobre si própria e Victor cravou as mãos na cadeira.

Seis. Cinco.

Detectou o cantil a abanar em cima do painel e, nesse instante, apercebeu-se que não só se tinha esquecido de o guardar, como também de o fechar. Esticou o braço, tentando alcançá-lo.

Quatro. Três.

A rotação aumentou e o cantil tombou antes que Victor lhe chegasse. Apesar da velocidade que a máquina atingia, o movimento do cantil parecia acontecer em câmara lenta.

Dois. Um.

Viu a água espalhar-se sobre o painel e, logo de seguida, um intenso clarão forçou-o a fechar os olhos. Tudo estremeceu.

Zero.

O movimento de centrifugação foi abrandando até parar. Victor abriu os olhos, mas via tudo a andar à roda e demorou alguns instantes a recuperar. Quando a sua visão estabilizou, analisou de imediato o painel de controlo e constatou, com horror, que nada estava ligado. Em pânico, tentou secar a água do painel com as mangas do fato e premiu repetidamente o botão de regresso, mas nada acontecia. O desespero levou-o a carregar em todos os botões que encontrava, com força e sem critério, na tentativa de que algum voltasse a accionar a máquina. Mas então olhou para o relógio de pulso e parou. Fixo, sem avançar um segundo que fosse, o mostrador exibia «00h31m27s». Nesse momento, Victor compreendeu que nada havia a fazer.

Restava-lhe a ele, o primeiro homem a viajar 1000 anos no futuro, o único cientista a conhecer o destino da Terra, o único físico a desvendar os mistérios da máquina do tempo e, talvez, o último membro da espécie humana, flutuar pela vastidão do espaço até que o oxigénio terminasse. Seria esse o futuro de Varszt. ■

 

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