
Ora bom dia a todos os presentes no tribunal. Vamos lá despachar isto depressa. Sr. Albano Tavares, em relação às acusações de homicídio de dez pessoas, como se declara?
— Inocente, Sr. Juiz.
— Sr. Albano, existem várias testemunhas que o viram a matar todas essas pessoas. Como é possível que se declare inocente?
— Bom, Sr. Juiz, eu de facto matei todas essas pessoas, mas foi em legítima defesa. Da sociedade.
— Em legítima defesa da sociedade?! Então faça lá o favor de explicar a este tribunal como é que alguém defende a sociedade assassinando dez pessoas.
— Com certeza. Passo então a explicar. Bem, o homem a quem esfaqueei a carótida com a minha chave de casa era um tipo que estava a pagar contas no multibanco, atrasando a vida de todos os que estavam na fila para levantar dinheiro. Porque é que alguém paga contas no multibanco, quando hoje em dia se podem pagar pela internet e toda a gente tem internet em casa, no trabalho ou mesmo no telemóvel? Não há desculpa para esta atitude imbecil!
Depois foram aquelas duas pessoas que atropelei repetidamente. Uma delas estava a atravessar a rua fora da passadeira, sem sequer se preocupar em olhar para ver se vinha algum carro, em passo lento e enquanto falava ao telemóvel; a outra fez questão de passar atrás do meu carro quando eu estava a estacionar, com as luzes de marcha-atrás ligadas, ignorando totalmente a minha manobra. Como vê, ambas situações inadmissíveis.
O homem a que eu esmaguei a cabeça contra um portão, foi um senhor que resolveu estacionar o seu carro à frente da minha garagem – que está devidamente sinalizada – impedindo-me de entrar em minha própria casa durante trinta minutos. Ora quando ele regressou ao automóvel, eu fiz questão de lhe esmagar a cabeça contra o sinal que indica a proibição de estacionamento naquele local.
Vamos agora passar ao caso que a imprensa caracterizou como «macabro»: o empregado de mesa ao qual arranquei os dois olhos com uma colher de café. Ora essa besta – e peço desculpa pela linguagem, Sr. Juiz – trabalhava num restaurante daqueles que não aceitam pagamentos com multibanco e no qual não existia nenhum aviso afixado a informar desse facto. E o referido empregado informou-me disso quando? Antes de eu iniciar a refeição, como seria de esperar? Não, claro que não. Avisou-me apenas no fim, forçando-me a andar quilómetros até que eu achasse um multibanco a funcionar. Incompetência gritante, Sr. Juiz.
E já que estou a falar da área da restauração, deixe-me então debruçar-me sobre o proprietário do restaurante italiano. Ora no restaurante deste senhor, por ordem dele, não é permitido trocar ingredientes das pizzas ou sequer adicioná-los! Nem mesmo pagando, veja bem o ridículo, Sr. Juiz! Pois bem, assim sendo eu fui a casa dele e obriguei-o a consumir uma pizza com cápsulas de cianeto. Ainda lhe perguntei se queria trocar as cápsulas por ananás, proposta a que ele acedeu, mas eu depois disse-lhe que não seria possível fazê-lo porque não me apetecia. E pronto, menos um ditadorzinho no mundo.
Depois houve a mulher que estrangulei no autocarro, pois tinha o telemóvel a tocar há cerca de dez minutos e nem o atendia nem o punha em silêncio; o espertinho a quem parti o pescoço porque tentou meter-se à minha frente na fila do supermercado; e aquela colega de trabalho que me disse – sem eu perguntar, claro – que os seus interesses eram «ouvir música, ir ao cinema e estar com os amigos». Ora isso não são interesses específicos, não é Sr. Juiz? É a mesma coisa que eu dizer que os meus interesses são respirar, comer e defecar! Por isso, fiz-lhe o que tinha de ser feito: uma lobotomia a sangue frio com uma chave-de-fendas.
— Segundo as minhas contas está a faltar uma pessoa, Sr. Albano. Salvo erro, a mulher a quem decepou os dois pés…
— Ah, tem razão, estava-me a esquecer dessa, Sr. Juiz. Nesse caso foi porque a mulher em questão estava a usar sabrinas. Não é preciso dizer mais nada, não é verdade?
— Bom, depois de o ouvir, Sr. Albano, e tendo em conta o perfil das pessoas que referiu, só me resta dizer-lhe que realmente prestou um grande serviço à sociedade, ao exterminá-las. Declaro-o absolvido de todas as acusações. E, em nome da sociedade, quero deixar-lhe um sentido agradecimento pelo seu serviço cívico. Obrigados.
— «Obrigados»?! «OBRIGADOS»?!?!?! Não devia ter dito isso, Sr. Juiz… ■







