Obama apreciando

Não é novidade para ninguém que, quando um grupo composto apenas por homens heterossexuais se reúne, um dos principais passatempos é a apreciação de mulheres. A questão é que, no âmbito desta actividade grupal que consiste na observação e emissão de comentários sobre mulheres, nem todos os homens são iguais. Deste modo, e após um estudo sociológico que tenho vindo a realizar há quase três décadas, consegui finalmente categorizar os tipos de homem no que concerne a apreciação de gajas. Aqui vão eles:

O Normal

O Normal aprecia vários tipos de mulher, embora tenha o seu gosto pessoal. Pode, por exemplo, preferir loiras a morenas ou betinhas a freakalhocas, mas no entanto tem a capacidade de apreciar um voluptuoso corpo feminino mesmo que este não se enquadre nos seus cânones de beleza ideal. No que toca a comentários, o Normal emite as apreciações típicas –  «granda canhão», «que gaja óptima» ou mesmo «olha lá aquele pandeiro» – num tom de voz adequado, dirigindo-as aos outros membros do seu grupo, numa óptica de chamada de atenção e partilha de opinião.

O Mudo

O Mudo tem preferências muito similares às do Normal. Ou seja, existem mulheres que prefere mas consegue apreciar de tudo um pouco. A grande diferença reside na comunicação, diferença essa ditada pela sua timidez ou por um respeito exagerado pelas mulheres. Deste modo, o Mudo não verbaliza a sua opinião com receio que alguma mulher que esteja nas imediações a oiça. Assim, opta pela sobriedade da linguagem não-verbal: dá uma cotovelada ou puxa a camisola apenas do seu companheiro mais próximo – para lhe chamar a atenção – apontando depois o objecto de apreciação com os olhos ou o queixo. É vantajoso permanecer ao lado de um Mudo pois, normalmente, este possui um olhar de falcão em relação às mulheres.

O Vocal

O total oposto do Mudo. É o tipo que tem pouco ou nenhum respeito pelas mulheres. Se tem preferências, estas são difíceis de entender, na medida em que ele tende a gritar, em alto e bom som, as suas apreciações a toda e qualquer mulher que passe à sua frente. O Vocal emite comentários. não para avisar os seus companheiros, mas sim com a intenção de que as mulheres oiçam a sua opinião. Acha que ao comunicar o que lhes gostaria de fazer, elas ficarão encantadas e o convidarão, prontamente, para fornicar. Os comentários do Vocal incluem frases clássicas do imaginário javardo, como «contigo era até achar petróleo», «rebentava-te essa bilha toda» ou «a ti metia-te a relinchar». Se por um lado ter um Vocal no grupo pode envergonhar-nos, por outro lado é um elemento que contribui para a coesão grupal. É que o Vocal tende a esquecer-se que, ao emitir a sua opinião em voz alta, não são só as mulheres que a ouvem. Os namorados, maridos e amigos delas também. E isso conduz, muitas vezes, a um excelente serão de pancadaria, de onde nascem sempre épicas histórias grupais.

O Criativo

O Criativo tem preferências e gosta de observar mulheres mas não é esse o principal factor que o move. Ele já se cansou de ouvir os mesmo piropos, vezes e vezes sem conta, procurando agora desenvolver novas formas dos homens manifestarem apreciação pelas mulheres. O que o faz vibrar é a criação de frases originais no mundo do comentário às fêmeas, que provoquem choque ou nojo junto dos seus companheiros, algo que é muito apreciado no universo masculino. Aqui vão alguns exemplos: «uma noite comigo e ela ia precisar de fisioterapia para voltar a andar», «fazia-te um filho pelo cú» ou «fazia-lhe a raspagem do útero com a picha». É importante sublinhar que os comentários desenvolvidos pelo Criativo que mais apreciação tenham no seio do grupo, passam a ser muitas vezes integrados no léxico do Vocal.

O Desviante

A comunicação do Desviante não está claramente definida, podendo oscilar entre o pólo do Mudo ou entre o pólo do Vocal. O que o difere dos restantes elementos é o facto dos seus gostos serem bastante peculiares. É aquele gajo que chama a atenção para uma mulher, sendo prontamente repreendido pelos seus companheiros com frases do tipo: «Epá, ‘tás maluco? A gaja não tem dentes!» Mas o Desviante não se importa, replicando logo com: «Exactamente! As desdentadas dão-me uma tusa descomunal!» Os critérios que o movem são únicos, existem apenas no seu universo mental e são de difícil compreensão para os seus companheiros. Ele excita-se com o bizarro – estrábicas, obesas, amputadas – e deleita-se com fetiches que ninguém partilha – tentar endireitar os olhos de uma estrábica através da cópula, mordiscar os cotos de uma amputada ou lamber a zona situada entre os pneus de uma obesa. O Desviante é o melhor wingman que existe, pois não só não representa competição, como também é provável que coma a amiga disforme daquela gaja a que vocês se estão a fazer.

O Esquisitinho

O Esquisitinho é aquele tipo que tem os padrões demasiado elevados e que parece nunca apreciar totalmente nenhuma mulher. Ele é o hipster da apreciação de fêmeas. Enquanto os outros elementos têm diferentes preferências mas sempre vão manifestando o seu apreço por esta ou por aquela, o Esquisitinho consegue sempre arranjar defeitos nas mulheres. Se alguns dos defeitos que aponta são compreensíveis, como não gostar de mamas pequenas ou de rabos demasiado grandes, a maior parte deles são forçados e ridículos. É habitual passar por ele uma mulher daquelas cuja beleza é consensual para qualquer homem, em qualquer parte do mundo, e ele emitir este género de comentários: «não gosto dos lóbulos das orelhas», «tem uns cotovelos estranhos» ou «o dedo mindinho do pé esquerdo é demasiado encarquilhado». Mesmo que a própria Afrodite lhe aparecesse à frente, ainda assim não lhe encheria as medidas. Uma curiosidade interessante em relação ao Esquisitinho é que, apesar de passar a imagem que os seus critérios são muito exigentes, apresenta uma tendência para apenas se envolver com mulheres tão hediondas que não interessariam sequer ao Vocal ou ao Desviante. ■

 

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