I.

Numa idílica noite de Verão, um cruzeiro navegava pelas águas quentes e pacíficas de um qualquer oceano. A bordo, os seus passageiros divertiam-se imenso com a festa de arromba que decorria até que, subitamente, o cruzeiro começou a afundar-se. Em completo pânico, todos se apressaram para os botes salva-vidas disponíveis e rumaram em direcção ao oceano desconhecido, na tentativa de escaparem de uma morte quase certa.

Infelizmente, de todos os botes, apenas um conseguiu atingir terra firme. Nele estavam seis pessoas: um DJ, um gestor, um engenheiro informático, uma decoradora de interiores, um copywriter e uma apresentadora de TV/modelo/actriz. Após algum tempo de conversa, que oscilou entre lamúrias pelo que aconteceu e alívio por estarem vivos, o grupo concluiu, aterrorizado, que o sítio onde desembarcaram era uma ilha deserta.

II.

Assumindo a liderança a que estava habituado, o gestor salientou que as equipas de busca poderiam ainda demorar algum tempo a atingir a ilha, pelo que seria melhor o grupo construir, de imediato, um abrigo. Todos concordaram. Assim, o gestor instruiu os outros a fazerem uma cabana enquanto ficou a pensar como rentabilizá-la, para seu benefício próprio, depois de terminada. O engenheiro informático começou então a construir a cabana, mas na sua mente, em código binário. Por seu lado, o DJ lembrou-se da música ideal para a construção de uma cabana. A decoradora de interiores referiu que, depois de construída a cabana, ela própria a decoraria, seguindo o tema «Tropical Chic». O copywriter teve uma ideia espectacular, envolvendo uma cabana, para um anúncio a uma marca de preservativos. Farta da apatia dos companheiros, a apresentadora de TV/modelo/actriz pegou num pau e, utilizando-o para mimetizar um microfone, perguntou a todos os outros que três objectos levariam para uma ilha deserta.

Apercebendo-se de que ninguém sabia construir uma cabana, a decoradora imaginou que durante o resto da sua vida poderia nunca mais voltar a ver um interior, sofreu  um ataque cardíaco e caíu inconsciente. Sem hesitar, o gestor instruiu os seus companheiros a fazerem reanimação cardiopulmonar à decoradora. O copywriter  pensou logo que um ataque cardíaco simulado poderia dar uma óptima campanha de marketing de guerrilha. O DJ lembrou-se de uma batida que tinha no computador, em que o bombo era composto por batimentos cardíacos. O engenheiro informático referiu que nada podia fazer porque o problema era de hardware. A apresentadora de TV/modelo/actriz disse, lacrimejando de emoção, que não gostava nada de ataques cardíacos e começou a desfilar como forma de apoiar todas as vítimas dessa patologia.

Desiludido com o sucedido, o gestor convocou uma reunião, na qual discursou sobre a falta de eficácia e produtividade dos seus companheiros, emitindo uma nova directriz: fazer uma fogueira. De imediato, o copywriter criou um jingle orelhudo que poderia ser utilizado para vender lareiras e começou a entoá-lo. O DJ pensou logo numa mistura brutal que poderia ser feita sobrepondo esse jingle a uma batida de electro house minimal progressivo. O engenheiro informático recordou que uma vez desenvolveu uma app para tablets que imitava o efeito de uma fogueira. Cheia de frio, a apresentadora de TV/modelo/actriz resolveu fazer um felácio ao gestor, na esperança de que este lhe arranjasse uma fogueira. O gestor esperou que ela terminasse e, de seguida, informou-a que fazer uma fogueira não fazia parte das suas competências.

III.

Com a moral cada vez mais em baixo, todos começaram a gritar e discutir, o que fez com que ninguém reparasse no leão que se aproximava, até ser tarde demais. O animal, faminto e agressivo, atacou primeiro o engenheiro informático, ao qual de nada serviu ter tentado erguer, mentalmente, uma firewall. Em pânico, o copywriter começou a correr, fazendo assim a sua derradeira campanha publicitária e logo a um produto que nunca esperaria: fast food para leões. Escusado será dizer que a campanha atingiu o público-alvo.

Neste cenário de carnificina, o gestor, o DJ e a apresentadora de TV/modelo/actriz esconderam-se atrás de uma rocha para tentarem passar despercebidos. Mas, ao ouvir a respiração do leão cada vez mais próxima da rocha, o gestor entrou em desespero e agiu instintivamente, seguindo o padrão comportamental que sempre adoptou na sua vida profissional: quando numa situação de ameaça, sacrificar um dos seus subordinados para se safar. Assim, agarrou no DJ e atirou-o ao leão na tentativa de saciar a besta. O pobre DJ foi prontamente devorado pelo animal e, durante o seu último fôlego, teve uma epifania: apercebeu-se que alguém que se limita a abanar os braços e a carregar no play num computador, sem sequer tentar misturar as músicas, não é verdadeiramente um DJ.

Sem saber mais o que fazer, o gestor começou a atirar pedras ao leão, estratégia essa que se relevou bem-sucedida, deixando a fera relutante em atacar os dois últimos sobreviventes. No entanto, de forma confiante e impiedosa, a apresentadora de TV/modelo/actriz colocou-se entre o gestor e o leão, gritando que era uma defensora dos animais e que, enquanto ali estivesse, nenhum animal seria magoado. Mal proferiu estas palavras, o leão dilacerou-a.

Petrificado de medo, o gestor permaneceu agarrado à rocha, esperando o inevitável desfecho. Enquanto o leão caminhava lentamente na sua direcção, emitindo rugidos por entre as suas mandíbulas ensanguentadas, o pavor fez com que o gestor se urinasse pelas pernas abaixo. Aguardando a investida final da fera, o gestor pensou na sua vida, lamentando que toda ela tivesse sido passada a mentir, manipular e servir-se dos outros apenas e só para seu benefício pessoal.

Mas, no derradeiro instante, um som forte invadiu o horizonte e afugentou o leão. Era o barulho do helicóptero de uma das equipas de busca que procuravam sobreviventes do naufrágio do cruzeiro. A equipa desceu até à ilha, encontrou o gestor encostado à rocha, ainda em choque, e transportou-o para casa.

IV.

Nos dias seguintes ao salvamento, toda a comunicação social queria um exclusivo com o gestor. Iniciou-se então uma sucessão de entrevistas, nas quais ele relatou detalhadamente a sua dramática experiência enquanto único sobrevivente do trágico naufrágio. Contou como o grupo chegou à ilha graças ao seu conhecimento de correntes marítimas, como construiu uma cabana e fez uma fogueira enquanto todos os seus companheiros desesperavam e como fez reanimação cardiopulmonar à decoradora depois desta ter tido um ataque cardíaco. Contou como todos foram emboscados por um grupo de leões e como ele tentou salvar os outros, em vão, lutando e matando vários leões até ter sido encurralado contra uma rocha. Contou como, quando tudo parecia ter chegado ao fim, pediu a Deus que o poupasse e, de súbito, apareceu o helicóptero da equipa de busca, afugentando o leão.

Nos meses subsequentes, o gestor lançou um livro descrevendo os terríveis acontecimentos pelos quais tinha passado, que foi best seller e, posteriormente, deu origem a uma megalómana produção cinematográfica. Tornou-se também num life coach e orador motivacional, dando inúmeras palestras pelo mundo inteiro, nas quais apregoava que o segredo do sucesso consistia em fazermos as coisas por nós próprios, ajudarmos sempre os outros e enfrentarmos, sem receio, todas as «feras» que vamos encontrando na nossa vida. ■

 

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