
A bola foi cabeceada por um central da sua equipa que, em esforço, cortou um cruzamento perigoso. Descreveu um arco com alguns metros e foi cair exactamente no local onde estava Serginho. Sem hesitar, e num único movimento, ele recebeu-a no peito e virou-se para a frente, deixando o seu marcador directo para trás. Com a bola no chão, utilizou a sua velocidade para passar por outro adversário e levantou a cabeça, procurando algum companheiro a quem passar. Percebeu então que não havia ninguém, todos os colegas de equipa estavam ainda na zona da defesa. Pois bem, teria que fazer tudo sozinho. Não podia desperdiçar esta oportunidade. Era o último minuto dos descontos da final do mundial de futebol e as equipas estavam empatadas a dois golos. Se conseguisse marcar, venceriam de certeza.
Tinha agora dois opositores pela frente. Com uma finta de corpo simulou que ia para a esquerda, mas foi para a direita, deixando um deles fora da jogada. O outro caíu-lhe logo em cima, correndo a seu lado à espera do momento ideal para lhe tirar a bola e pressionando-o em direcção à linha lateral. Serginho sprintou uns metros e depois, num gesto súbito, abrandou e passou a perna esquerda por cima da bola, ao mesmo tempo que com o pé direito fez a bola mudar de direcção. Apanhado de surpresa, o adversário foi incapaz de mudar de trajectória: deu mais uns passos, desequilibrou-se e caiu com aparato. Serginho sorriu, mas apenas durante breves instantes – faltava ainda ultrapassar mais dois defesas, para além de perceber pelo canto do olho que os reforços do adversário já vinham no seu encalço. Não podia abrandar.
Encontrava-se na linha da grande área. O primeiro defesa correu agressivamente na direcção da bola, decidido a chegar até ela antes de Serginho e chutá-la para longe. Mas o jogador mais jovem de sempre a jogar na final de um mundial foi mais rápido e, pisando a bola com um pé, puxou-a ligeiramente para trás e depois, acto contínuo, rodou sobre si mesmo e utilizou o outro pé para a fazer contornar o adversário – a «roleta marselhesa». E com esse espectacular movimento, entrou na grande área.
O segundo defesa foi mais prudente e ficou a aguardar o movimento de Serginho, antes de tomar qualquer decisão. Sabendo que não podia perder tempo e que precisava de provocar a reacção do adversário, o miúdo decidiu aplicar o «elástico»: deu um toque com a parte exterior do pé, como se fosse para a direita, o que fez o defesa inclinar-se nessa direcção, e rapidamente, sem que a bola perdesse contacto com o pé, trouxe-a com a parte interior do pé no sentido oposto, por baixo das pernas do adversário.
Essa finta neutralizou o defesa mas fez a bola adiantar-se um pouco demais, e Serginho deparou-se com o guarda-redes já a deslizar pelo chão, aproximando-se depressa, tentando abafar qualquer ângulo de remate. E não se tratava de um guarda-redes qualquer: era o melhor do mundo; para alguns, o melhor de sempre. Mesmo pressionado, em desequilíbrio e quase sem espaço, Serginho conseguiu picar a bola com o seu pé esquerdo por cima do guardião, que ainda tentou alcançá-la com a ponta dos dedos, mas sem sucesso. A bola subiu um pouco e depois, no momento certo, com um timing perfeito, desceu junto à trave e entrou na baliza.
O estádio ficou ao rubro. Todas as pessoas se levantaram, não só os adeptos do seu país, mas também os da selecção adversária. Não aplaudiam apenas o golo, mas sim toda uma jogada absolutamente mágica, daquelas a que é um privilégio assistir, daquelas que nunca ninguém esquecerá.
Serginho tirou a camisola, abriu os braços e correu pelo campo, desviando-se dos vários colegas que o tentavam abraçar, eufóricos. Graças a ele, o seu país era campeão do mundo! Dirigiu-se à bancada mais próxima dos seus conterrâneos, para celebrar com eles, mas antes que lá chegasse os companheiros apanharam-no finalmente e fizeram-no tombar, tal era a emoção colocada nos abraços. Deitado no chão, com todos os seus companheiros, treinadores e restante staff amontoados em cima dele, gritando e agradecendo-lhe por aquele momento, o miúdo chorava de alegria. Era um herói nacional.
E foi então, por entre o bruaá da multidão e os soluços emocionados dos colegas de equipa, que Serginho ouviu, com toda a clareza, a voz da sua mãe.
«O que é que estás a fazer deitado no chão, Sérgio Miguel? Ainda por cima sem camisola?! Já não te disse para vires almoçar?! Ou queres comer o feijão frio? Deixa essa porcaria da bola por um bocado que seja, porra!»
Serginho levantou-se, apanhou a velha t-shirt e vestiu-a. Passou entre os dois pneus inutilizados que faziam de postes, até ao sítio onde a bola de trapos tinha parado e, pontapeando-a pela terra batida com os seus pés descalços, correu rapidamente até casa. Afinal de contas, até os campeões do mundo precisam de comer. ■







