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Ilustração: Celso Moura

 

Marco pegou na pedra que jazia ao seu lado, levantou-se, armou o braço e arremessou-a contra o portal. A pedra foi absorvida sem esforço pelo grande círculo de luz brilhante, gerando ondas concêntricas, como se tivesse caído num lago.

— Porque é que fizeste isso? Estás maluco?! — questionou Elias, ainda agachado atrás do arbusto.

— Já estamos aqui escondidos há quase dez minutos e não se passou nada. Quero ver se acontece alguma coisa.

— Baixa-te, Marco! — Elias agarrou no braço de Marco e tentou puxá-lo para baixo.

— Larga-me! — protestou Marco, sacudindo o braço do outro. — Não faz sentido estarmos escondidos, não há perigo nenhum.

— Sabes lá! Nenhum de nós sabe o que é aquilo! – respondeu Elias.

— E então? Não sabemos, vamos descobrir. Se quiserem continuar aí escondidos, é com vocês, eu vou ver aquilo de perto. — Saiu de trás dos arbustos que os camuflavam e dirigiu-se até ao portal.

— Marco! — gritou Elias num sussurro, tentando chamar o amigo à razão, mas sem sucesso. Depois olhou para Alfredo, que se limitou a encolher os ombros.

Naquela tarde, como em muitas outras, os três amigos compraram duas garrafas de cerveja de litro e foram até ao parque. Instalaram-se no sítio do costume: um local mais recôndito, coberto por arvoredo, longe de famílias com crianças e outras pessoas que lhes pudessem atirar olhares reprovadores. Ali podiam beber à vontade, sem que ninguém os incomodasse. Cada um sentado na sua pedra, partilhavam as litrosas, quando Marco tirou um charro do bolso e perguntou aos amigos se queriam fumar. A resposta foi a habitual: Elias recusou prontamente e Alfredo ficou a ponderar.

Foi nesse momento que o portal se materializou: com a brusquidão de um relâmpago, apareceu um enorme círculo de luz azul ondulante, a poucos metros de onde os amigos estavam. Com um diâmetro de quase cinco metros, o círculo encontrava-se suspenso no ar, a sua base a uma distância de alguns centímetros do chão.

A súbita aparição assustou os três amigos, que soltaram um grito de pavor e se levantaram das pedras, deixando cair as garrafas no chão. Elias correu instintivamente para trás dos arbustos mais próximos, procurando refúgio, e os outros dois imitaram-no. Agachados, aguardaram expectantes o que sairia daquilo que era, claramente, um portal. Só que nada aconteceu.

Elias e Alfredo observavam agora Marco a caminhar em direcção ao grande círculo. Aproximou-se com curiosidade e estacou quando estava a cerca de metro e meio. Observou as ondas azuis celeste durante um momento e depois agarrou numa das garrafas quase vazias e atirou-a ao portal, que a assimilou sem resistência.

— Epá, pára com isso! — Refilou Elias, levantando-se do seu esconderijo. — Estás a pôr-nos em perigo!

— Cala-te, medricas.

— Alfredo, ajuda-me: não achas pouco prudente o que ele está a fazer?

Alfredo olhou para Elias e ergueu-se também.

— Sim, talvez…

— Mas como é que vocês sabem que é perigoso, digam lá?

— E como é que tu sabes que não é? — ripostou Elias.

— Não sei se é ou não, estou a arriscar.

— E estás a arriscar para quê?

— Porque quero perceber o que é.

— E achas que isso compensa o risco?

— Acho. Sei lá o que pode estar do outro lado.

— Exactamente! Não sabes! Pode ser algo terrível!

— Mas também pode ser algo espectacular! — Olhou para o terceiro amigo. —Não é, Alfredo?

— Sim, realmente, pode…

— Olha, estou cansado desta conversa e da tua irresponsabilidade, Marco. Vamos mas é sair daqui e avisar a polícia ou assim. — Saiu de trás do arbusto e começou a caminhar para fora o arvoredo.

— Façam o que quiserem, eu cá vou ver o que há do outro lado.

Elias parou e olhou para ele.

— Pára com esta loucura!

— Mas qual loucura?! Apareceu aqui um portal, uma passagem, e eu quero saber onde é que ela vai dar. Isso é louco porquê?

— Precisamente por não saberes onde vai dar! Nem sabes o que essa porcaria é! Imagina que isso é obra de extraterrestres!

— E se for? Qual é o problema?

— Qual é o problema?! — Aproximou-se de Marco. — Sabes lá o que é que eles te vão fazer! Sabes lá se não te vão matar para ver os teus orgãos ou qualquer coisa do género!

— E tu sabes lá se eles não são mais avançados que nós e vão dar-nos uma tecnologia qualquer que vai salvar o planeta?

— Achas mesmo que é isso que vai acontecer? Que abriram este portal aqui no meio do nada para nos darem tecnologia? A nós os três?

— Não faço ideia, mas é uma possibilidade. E como essa há muitas outras. Como ir dar um local cheio de dinheiro ou, melhor ainda, a uma sociedade qualquer onde só existem mulheres e eu serei o único homem… — Esboçou um sorriso malandro e sonhador.

— Não acredito no que estou a ouvir… — Elias levou as mãos à cara. Depois voltou-se para Alfredo, que se te tinha aproximado, e disse: — Por favor, vê se consegues convencer este gajo dos riscos de atravessar aquela coisa…

— Marco, eu acho que o Elias tem razão. É capaz de ser perigoso entrar no portal não sabendo o que vais encontrar…

— Mas como é que tu sabes isso? Como é que algum de nós sabe, sem lá ir ver? — protestou. — Imagina que isto vai dar a uma dimensão paralela qualquer onde todas as pessoas têm grandes casas e não precisam de trabalhar… Não vale a pena arriscar? É preciso entrar para saber, não há outra forma.

— Bem, isso é verdade. Sem entrar, nunca saberemos…

— És parvo ou quê? — retorquiu Elias. — Não saberemos mas também não morreremos!

— Que exagero… — comentou Marco.

— Quer dizer, tu achas que vais para a um planeta ou uma sociedade qualquer onde ninguém trabalha e tu és o único homem no meio de mulheres, e eu é que sou o exagerado?

— Ouve, não me interessa o que é que tu achas. Eu vou entrar e tu fazes o que quiseres. Lá porque tens medo de tudo e mais alguma coisa, não quer dizer que os outros também tenham. Se não queres sair do mesmo sítio, é contigo; agora pára é de chagar o juízo aos que querem!

— Eu tenho é consciência dos perigos que existem! Ao contrário de ti, seu irresponsável! Que te atiras à parva para tudo! Estás sempre a meter-te em merda porque nunca medes as consequências do que fazes!

Ignorando o comentário de Elias, Marco olhou para Alfredo e disse:

— Eu vou atravessar o portal agora. Vens comigo ou ficas aqui?

— Hum… hmmm… hum… — Alfredo olhou para Marco, depois para Elias, depois voltou a olhar para Marco.

— Tu ainda és pior que ele, porra! Nem sabes aquilo que queres! Não és capaz de escolher nada! — Aproximou-se de Alfredo. — Se não decidires o que queres, a vida vai decidir por ti, seu idiota! Não percebes isso?! — Ergueu um dedo e apontou-o ao amigo. — Por isso decide agora: vens ou não vens?

Alfredo encarava-o, de olhos arregalados, sem dizer nada. Fitaram-se, imóveis, durante alguns segundos e depois Marco abanou a cabeça e virou-lhe as costas.

— Como queiras. Eu cá vou andando. Espero que apreciem a vossa vidinha de medo e ignorância. Se decidir voltar, depois conto-vos as coisas que vi. Adeus. — Sorriu e começou a caminhar em direcção ao portal.

— Pára, Marco! — Gritou Elias, o que não provocou qualquer hesitação no outro. Ao ver o amigo quase a entrar no portal, quase a desaparecer no terrível desconhecido, Elias deu uns passos de corrida, ultrapassou Marco e colocou-se à sua frente, entre ele e o grande círculo. — Chega! Não te vou deixar passar!

— Estás maluco? Achas que me vais impedir de ir onde quer que seja? Sai mas é da minha frente, antes que isto te corra mal…

— Não vais atravessar este portal! Não vou deixar que destruas a tua vida só porque és impulsivo!

Marco deu mais uns passos e ficou a meros centímetros de Elias.

— Sai já… da minha… FRENTE!

— Não saio!

Marco tentou contornar o lado esquerdo de Elias, mas este impediu-o, agarrando-lhe os braços. «Larga-me!», ordenou Marco, soltando as mãos de Elias. «Não!», replicou o outro, voltando a agarrá-lo. «Pessoal, parem com isso…», tentou intervir Alfredo, aproximando-se. Marco tirou as mãos do outro novamente, cada vez mais irritado, mas Elias fez nova investida. Desta feita, Marco conseguiu desviar as mãos e tentou contornar o amigo, mas este recuperou e colocou-se à sua frente uma vez mais, agora de braços abertos, como se fosse um guarda-redes à espera de perceber para onde irá a bola.

Furioso, Marco correu a toda velocidade em direcção ao portal e, quando Elias se colocou à sua frente, a cólera fez com que ele não se desviasse e embatesse no amigo. Apanhado desprevenido, Elias desequilibrou-se, deu dois passos atrás e, com a aflição estampada no rosto, tombou para dentro do portal e desapareceu.

Os dois amigos entreolharam-se num pânico silencioso por alguns instantes.

— Elias! Elias! — chamou Alfredo. — O que é que tu fizeste, Marco?!

— Eu… Eu… Eu não queria… A culpa foi dele…

— E agora?! O que é que fazemos agora?

— Hmm… Esperamos que ele volte… Sim, ele deve estar aí a voltar a qualquer momento…

— E se ele não voltar?! Vamos buscá-lo?

Marco olhou para o portal e engoliu em seco.

— Não, não… Eu não vou entrar nessa porcaria! — Depois começou a recuar e disse: — Vamos… vamos mas é sair daqui antes que alguém nos veja.

— Sair daqui?! Mas… mas… não vamos tentar ajudar o Elias?

— Ajudá-lo?! Eu sei lá onde é que ele está! Sei lá o que está do outro lado disso!

— Mas foste tu que o empurraste!

— Foi um acidente! Ele pôs-se à minha frente, tu viste!

— Está bem, mas podemos tentar ajudá-lo! Chamar a polícia ou assim!

— Chamar a polícia, és maluco?! Eles vão achar que foi de propósito, que tentámos matá-lo! Não, eu vou é pôr-me a andar daqui para fora. Tu faz o que entenderes. — E saiu a correr, afastando-se a toda a velocidade.

Alfredo viu Marco a fugir e teve o instinto de fazer o mesmo, mas depois olhou para o grande círculo de luz e pensou que Elias poderia estar magoado e que deveria ir ajudá-lo. Avançou até ao portal, mas ocorreu-lhe que não sabia o que estava do outro lado. Podia ser algo perigoso. O portal podia ir dar a um sítio qualquer de onde ele caísse, por exemplo. Se calhar Elias tinha caído e estava morto. Talvez o melhor fosse fugir dali, como tinha feito Marco. Olhou para o parque, onde a silhueta de Marco a correr já era difícil de perceber.

Mas… e se Elias estivesse só caído, inconsciente? Talvez bastasse entrar lá, pegar nele e voltar a atravessar o portal para este lado. Salvaria o amigo sem grande risco. Olhou para o portal.

Quer dizer, isso se fosse possível regressar… Se calhar Elias estava a tentar voltar e não conseguia, e iria acontecer-lhe o mesmo se também ele atravessasse para onde quer que fosse… Voltou a mirar o parque. Já não havia sinais de Marco.

O melhor seria sair dali e pedir ajuda. Sim, pedir ajuda a outras pessoas que soubessem o que fazer numa situação daquelas. Não que já alguém tivesse passado por aquela situação, mas pelo menos alguém mais habituado a lidar com situações graves ou de crise.

Mas e se a ajuda demorasse muito tempo? E se Elias estivesse a precisar de ajuda agora mesmo e não depois? Se a ajuda chegasse tarde demais? Nesse caso ele teria de…

Foi então que, tão depressa como se materializou, o grande círculo azul colapsou sobre si mesmo e desapareceu perante o olhar surpreso de Alfredo.

O seu dilema estava resolvido.

«Não! Não! Elias! Eliiiaaaaasss!», gritou durante alguns segundos, e depois deixou-se cair no chão, de joelhos. «Elias…», murmurou.

Enterrou as mãos na cara e começou a chorar. ■

 

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