Sessão de Lançamento Cancelada

É com enorme pesar que informo todos os meus fãs que a sessão de lançamento do meu novo livro, «Um Belo Dia para Morrer e Outras Histórias» teve de ser cancelada devido à pandemia. Sei que nada se aproxima da experiência de privarem comigo, mas na tentativa de vos compensar um pouco por essa profunda perda, decidi descrever-vos como iria ser o evento.

Para tal, optei por narrar os acontecimentos planeados naquela que é considerada por muitos a perspectiva mais difícil para escrever uma história: a 2ª pessoa do singular. Fi-lo dessa forma não só para mostrar todo o meu brilhantismo, mas também para que os meus fãs tivessem uma experiência mais imersiva, sentindo tudo como se estivessem a viver o evento.

Se se consideram capazes de aguentar tamanha emoção, continuem a ler.

 

Já aqui estás há uma hora mas não acreditas ainda na tua sorte. Tu, uma das 50 pessoas seleccionadas para estarem presentes na sessão de lançamento do novo livro do Aclamado Autor… Quando achavas que a Fortuna nada queria contigo, eis que ela te concede a maior dádiva de todas.

Claro que não foi só sorte, também houve muito mérito teu. Afinal de contas, foste uma das 200 pessoas que conseguiram passar todas as provas de qualificação. Foste das primeiras a decifrar as pistas da localização onde as provas decorreriam; dominaste a prova de conhecimento do autor – falhaste apenas na rapidez com que lhe crescem as unhas –, foste das mais apaixonadas a explicar o brilhantismo da sua escrita; e, claro, uma das melhores nas provas de destreza e aptidão física. Foi a primeira vez que mataste uma pessoa e a verdade é que isso te custou um pouco. Mas também só custou essa primeira, as oito seguintes foram muito mais fáceis. Até porque já não as vias como seres humanos, mas sim como inimigos que tentavam impedir-te de assistir ao evento do século. Quando o staff do Aclamado te confirmou que eras um dos sorteados, foi o momento mais feliz da tua vida. Desmaiaste de felicidade. Várias vezes. E quando voltaste a casa, choraste todos os dias até a carrinha preta te vir buscar.

A carrinha, vidros fumados e escolta policial, levava-te a ti e a mais cinco, todos tão ou mais excitados que tu. Iam participar num evento único e, com sorte, conseguiriam conhecer o magnífico Amílcar Monteiro. Foram conduzidos ao aeroporto, onde um jacto particular aguardava. O jacto levou-vos até uma pequena ilha no Pacífico que, reparaste quando ainda estavam no ar, tinha sido esculpida numa forma que reconhecerias em qualquer lado: a Aclamada Cabeça.

Uma vez na ilha, transportaram-te para o sítio onde decorrerá a sessão. Trata-se de uma plataforma circular com várias cadeiras dispostas em semicírculo à volta de um pequeno palco, no qual se encontra uma mesa rectangular, com três cadeiras. Um longo manto preto cobre a mesa e, por cima dele, estão três microfones e duas caixas de madeira fechadas, que te deixam a pensar o que conterá o seu interior. Ao lado da mesa, na parte direita do palco, detectas um grande bloco de pedra com as laterais trabalhadas, o que achas bastante esquisito. Para que servirá aquela pedra?

Mas não é só isso que estranhas, há umas quantas outras coisas: para começar, o próprio local da sessão, uma plataforma ao ar livre, sem paredes nem tecto, o que te parece muito pobre para tão ilustre evento; depois, o facto de se encontrarem várias equipas médicas espalhadas pelo recinto; e finalmente, não existirem exemplares do livro para venda em lado algum, o que é bizarro num lançamento. A única coisa que dá a entender que se trata da apresentação de um livro é um roll-up, situado logo à entrada da plataforma, no qual aparece a capa e o título da tão ansiada obra.

Entretanto, no espaço de tempo desde que te sentaste, a plataforma foi enchendo até não existir qualquer lugar vago. Rejubilas novamente, desta vez por te ter sido atribuído um lugar central, na primeira fila, um dos melhores da sala. Poderás ver Amílcar Monteiro em carne e osso, a poucos metros de ti. Sorris ao pensar o quanto te invejam os milhões de fãs que, neste preciso momento, se encontram em estádios apinhados por esse mundo fora, e que terão de se contentar com um mero holograma do Aclamado.

É então que ouves um som. Um compasso rápido, que se aproxima. Todos os presentes se entreolham até que alguém chama a atenção para o céu. E lá em cima, avançando na vossa direcção, vês um enorme helicóptero caracterizado com imagens de montanhas verdes, um céu azul onde o sol se anuncia e silhuetas da Morte e de um bobo. Aí percebes: é ele! Está a chegar! Finalmente vem aí! Sentes o coração disparar com a antecipação.

Quando se encontra quase por cima da plataforma, o helicóptero detém-se e tu observas uma das portas a abrir-se. Do interior sai um homem que se senta com as pernas penduradas e acena para todos vós. O Aclamado Autor! A sala irrompe numa explosão de gritos eufóricos e aplausos frenéticos. O Aclamado coloca-se de pé, no trem de aterragem, abre os braços e, para espanto geral, salta do helicóptero. Um gracioso mergulho para o nada, um voo a pique com a decisão e elegância da mais nobre das aves de rapina.

À medida que vês o teu ídolo rasgar o ar, esperas que a qualquer momento ele abra o pára-quedas e inicie a sua descida controlada, flutuando com delicadeza, como se fosse um enviado dos céus. Mas para teu horror isso nunca chega a acontecer: o seu corpo embate directamente no chão, a alguns metros da plataforma, desfazendo-se numa grotesca névoa vermelha. Os aplausos cessam e tu desvias a cara, instintivamente. Não queres ver mais, não queres acreditar no que aconteceu. O Aclamado Autor… no dia do lançamento… um terrível acidente… E não és a única pessoa a sentir-se assim. Por toda a plataforma ouvem-se brados horríveis e lamúrias agonizantes.

De súbito, uma voz. A voz que pensavas nunca mais ouvir. «Não desesperem, queridos fãs. Olhem para o palco.» É o que fazes e, para teu enorme espanto, vês Amílcar Monteiro deitado em cima da mesa, de lado, numa pose extremamente sensual que confirma a tua crença de que ele é dos homens mais bonitos de sempre.

Durante breves momentos, ninguém diz nada. Ninguém percebe de onde ele apareceu, o que aconteceu. Mas depois a multidão vai ao rubro. Gritam, choram, abraçam-se, a felicidade que contamina a sala é indescritível. O Aclamado Autor coloca-se de pé em cima da mesa, dá um mortal à rectaguarda, e cai na cadeira do meio, já sentado e de perna cruzada. Uma nova onde de palmas percorre o auditório, uma onda que apenas cessa quando Amílcar começa a falar.

Com uma voz que enfeitiça a plateia, ele explica que a pessoa que viram saltar do helicóptero não era ele mas sim um dos seus maiores fãs, que se voluntariou – aliás, implorou – para morrer no dia do lançamento, porque aquele seria «um belo dia para morrer». E o Aclamado fez-lhe a vontade, mas não sem antes lhe proporcionar a maior honra imaginável: que fosse o primeiro leitor do novo livro. Róis-te de inveja ao ouvir aquilo. Irrita-te não teres sido tu a fazer essa proposta. Quem te dera estares no lugar desse fã…

Sem parar, o Aclamado informa que agora virão dois convidados apresentar o livro. «Aqui estão eles», diz, abrindo os braços num gesto teatral. Emergindo do chão do palco, aparece à sua esquerda um homem e à sua direita uma mulher, ambos vestidos com uma túnica preta. Os holofotes concentram-se nas duas figuras mas não é possível perceber quem são, pois o capuz da túnica tapa-lhes o rosto. Há um compasso de espera que gera um murmúrio na sala. Então, ao mesmo tempo, os convidados tiram o capuz e revelam a sua identidade. E tu não queres acreditar quem são: nada mais, nada menos, que John Cleese e Margaret Atwood.

Sentam-se à mesa, cada um de seu lado, e falam à vez do novo livro de Amílcar Monteiro, mas também de toda a sua obra. Primeiro Atwood e depois Cleese, utilizam termos como génio, sofisticação, inovação, deslumbramento, verdade. Percebes que conhecem o trabalho do Aclamado em grande detalhe e discutem algum simbolismo de que nunca te tinhas apercebido. É por coisas dessas que adoras a escrita do Aclamado Autor, estás sempre a descobrir novas camadas de complexidade.

Quando Cleese acaba de falar, ambos se levantam, pegam nas misteriosas caixas de madeira e dirigem-se até ao grande bloco de pedra que tinhas visto inicialmente. Param mesmo à sua frente e, encarando o público, despem as túnicas e revelam os seus corpos nus. Depois abrem as caixas e, do seu interior, cada um retira uma faca ornamentada. Em uníssono, afirmam que após terem lido «Um Belo Dia para Morrer e Outras Histórias» já experienciaram o expoente máximo da literatura, da arte e da vida, pelo que mais nada interessa. Resta apenas morrerem. Olham-se e beijam-se languidamente e, em simultâneo, cravam as adagas no coração um do outro. Depois caem, inanimados, no bloco de pedra, que percebes agora tratar-se de um altar sacrifical.

Estás ainda a assimilar o que acabou de acontecer quando a plataforma inteira começa a tremer. Olhas à volta, num estado de desorientação, e assistes a um vidro a brotar do chão da plataforma e a cobri-la na totalidade, formando uma cúpula. Cruzas olhares com o Aclamado Autor, que te pisca o olho e sorri, e de seguida aponta para baixo. Sentes uma sensação de queda e, quando dás por isso, a plataforma inteira começa a afundar-se, até se encontrar completamente submersa a vários metros de profundidade.

Nesse momento, Amílcar levanta-se e diz umas quantas palavras sobre como a fluidez da água, do sangue e das palavras é semelhante, e que em todas devemos estar imersos se pretendermos usufruir devidamente da experiência de estarmos vivos. Enquanto ele fala, observas a pedra sacrificial desaparecer no chão, levando com ela os cadáveres de Margaret Atwood e John Cleese e, pouco depois, os seus corpos a flutuar no oceano, em direcção à escuridão e ao desconhecido. Não consegues deixar de notar nos sorrisos que ambos têm na cara. Uma vez mais, invejas a sua sorte.

Mas não por muito tempo. Porque o Aclamado Autor começa a falar de forma mais eloquente, revelando a sua sabedoria e inteligência, o seu humor e profundidade, e tu pensas que se tivesses falecido não poderias ouvir aquelas palavras. Ao escutá-las, sentes o teu cérebro a reconfigurar-se, a tua compreensão da vida a expandir-se, a tua alma a incendiar-se. Felizmente, e apesar de estares sob uma espécie de transe hipnótico e sentires o teu coração extremamente acelerado e um formigueiro no resto do corpo, ainda tens a capacidade física para aguentar toda a experiência. Muitos outros que ali estão não têm a mesma sorte. Algumas pessoas têm convulsões, outras ataques cardíacos e umas quantas chegam mesmo a morrer com uma overdose de deslumbramento – entendes, por fim, a presença das equipas médicas. E, claro, como já é habitual quando Amílcar Monteiro fala ao vivo, imensas pessoas – e alguns pequenos animais – têm violentos orgasmos (ainda te recordas bem da primeira vez que observaste um coala urrar de prazer).

Só que então, e sem que nada o fizesse prever, ele cala-se e o teu transe é quebrado. Quando voltas a ti, vês um homem no palco, a meros centímetros do Aclamado, com uma pistola apontada à sua cabeça. Arregalas os olhos e o teu corpo fica petrificado. O homem grita que o Aclamado Autor é uma fraude, que nunca soube aproveitar as oportunidades, que usurpou a vida que devia pertencer a… Aníbal Monteiro! Oh, não! Agora percebes tudo! Trata-se de um lacaio de Aníbal Monteiro, o sósia maléfico e arqui-inimigo de Amílcar Monteiro! Este homem é um assassino enviado para eliminar o teu ídolo! Por breves instantes, questionas-te sobre como conseguiu este simples mortal resistir às palavras encantatórias de um semi-deus, mas depois reparas que ele está a usar fones nas orelhas, e compreendes que é exactamente porque sabia que, de outro modo, seria incapaz de aguentar. Temes pela vida de Amílcar, pois sabes que àquela distância nada conseguirá impedir que a bala do fanático acerte no alvo. Não vislumbras salvação possível.

O que te esqueceste é que se trata do Aclamado. Com uma confiança divina, ele olha o assassino nos olhos e sorri-lhe, e o homem pára de falar. Vês a hesitação a apoderar-se dele. A sua mão, a que carrega a pistola, treme descontroladamente, o que faz com que toda a sala fique em suspenso, aguardando o tiro fatal a qualquer momento. É nessa altura que Amílcar Monteiro abre os braços, convidando o homem para um abraço. Observas o fanático a tentar resistir com todas as forças, a sua cara dominada por incontroláveis espasmos reveladores da luta que trava contra uma vontade indomável. Mas essa resistência pouco dura. Segundos depois, o homem desfaz-se num pranto, baixa a arma e atira-se para os braços de Amílcar. Com a gentileza de um santo, este coloca-lhe os braços ao redor, num abraço apertado e caloroso, e o assassino começa a soluçar, pedindo desculpa repetidamente. O Aclamado beija-lhe a cabeça.

A sala solta um suspiro de alívio e, logo de seguida, aplaude e chora. É com esse espírito de comoção como fundo que a plataforma inicia a sua subida e, uma vez na superfície, os vidros da cúpula recolhem. Vês a polícia entrar no recinto e dirigir-se ao palco para deter o homem, mas o Aclamado impede-os e convida o homem a sentar-se ao seu lado. Entre lágrimas e soluços, ele agradece, o seu olhar repleto de gratidão e admiração perante a benevolência e grandiosidade do teu ídolo.

De seguida, o Aclamado Autor Amílcar Monteiro faz um gesto com a mão, pedindo que os aplausos parem. Tu e todos os outros cumprem. Depois, ele profere o excerto final do seu discurso, um momento que nunca esquecerás:

«Leais fãs, chegou a altura de me despedir. Agradeço terem vindo de tão longe para assistir a esta sessão de lançamento, mas é agora hora de voltar ao ofício da escrita. Tenho milhares de novos livros, peças, espectáculos, filmes e séries a borbulhar na minha mente e preciso de as materializar, de as passar para o papel. Mas antes de partir, quero dizer-vos duas coisas. A primeira é que quando regressarem a vossas casas, todos aqueles aqui presentes terão, à sua espera, um exemplar do “Um Belo Dia para Morrer e Outras Histórias”.»

Guinchas até a tua voz ficar rouca, dás pulos de alegria, arrancas cabelos, abraças os outros fãs. Apetece-te correr já para casa para devorares o livro, livro esse que já esperavas ser o melhor que alguma vez leste, mas que não sabias ainda o quanto mudaria a tua vida, o quanto te ajudaria a encontrares o teu caminho, a descobrir o teu propósito. Depois dos ânimos acalmarem, o lendário autor continua:

«A outra coisa que tenho para vos dizer é que não quero que me tratem mais por Aclamado Autor, nem sequer por Amílcar Monteiro.» Todos na plataforma se entreolham, sem compreender. «Um artista como eu precisa de um nome com um única palavra, um nome que reflicta exactamente aquilo que sou, mas sem nunca abdicar da minha identidade. A partir de agora, quero que me tratem por…»

E, nesse preciso momento, ele desaparece numa nuvem de fumo. Não percebes como é que fez aquilo, nem para onde foi, só vês o fumo a rodopiar e a subir em direcção ao céu. E à medida que ascende, o fumo começa a escurecer e a ficar mais concentrado, a transformar-se em linhas ondulantes. Tal como todos os outros fãs, não consegues desviar o olhar daquele fenómeno fascinante. As linhas unem-se numa única linha horizontal, que depois se quebra em onze segmentos, segmentos esses cuja configuração muda, aos poucos, até se tornar numa palavra perfeitamente legível. Ao vê-la, sorris e concordas com a cabeça. Sim, assenta-lhe que nem uma luva. Não poderia existir nome mais perfeito para o teu ídolo. A palavra que lês no céu é:

 

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