Ilustração: Celso Moura

 

A gravação parou abruptamente e o homem sabia o que isso significava: dentro de momentos, a enfermeira entraria no quarto. E assim foi: ela abriu a porta, fechou-a e caminhou até à cama articulada. A primeira coisa que fez foi substituir o saco de soro e confirmar que fluía pelo cateter. Olhou para o monitor dos sinais vitais apenas por hábito, pois essa informação era enviada, em tempo real, para o seu telemóvel. De seguida, aplicou o sedativo intravenoso e, pouco tempo depois, o homem estava inconsciente.

Desapertou as correias que lhe prendiam os pulsos, tornozelos e pescoço e pegou no tubo de creme hidratante que se encontrava na mesa de cabeceira. Aplicou-o primeiro na zona das correias e depois, utilizando a sua força e experiência para posicionar o corpo inerte, aplicou-o nas zonas mais propensas a desenvolver escaras, onde a pressão dos ossos tornava a pele mais fina. Verificou a algália, trocou o saco de urina, voltou a prender as correias e a tapar o homem e aguardou os poucos minutos que demoraria a que ele retomasse a consciência. Assim que isso aconteceu, ela pegou no copo com água, mergulhou a esponja e passou-a pelos lábios do homem, espremendo-a. O corpo dele estremeceu de prazer ao sentir as gotas de água na boca e na garganta. Guardou a esponja dentro do copo e colocou-o junto do tubo de creme, na mesa de cabeceira.

Finalmente, arrastou a cadeira até ao nível da cabeceira da cama, sentou-se e cruzou a perna. Durante alguns minutos, fitou o rosto do homem que ali jazia, em silêncio, até estar segura de que os efeitos da sedação já se tinham dissipado na totalidade.

— Vamos começar — informou a enfermeira.

O homem respirou fundo.

— Nome?

— Marta Filipa Oliveira Nunes — respondeu ele, numa voz rouca.

— Data de nascimento?

— 30 de Setembro de 1989, às 22h37.

— Local?

— Maternidade Alfredo da Costa.

As perguntas continuaram, sem interrupção, e as respostas acompanharam. Zona da cidade onde viveu até aos 12 anos de idade. Zona da cidade onde viveu até aos 21 anos. Nome da universidade. Título da tese de mestrado. Nota final. Nome da primeira clínica onde estagiou. Nome da primeira clínica onde trabalhou. Nome da clínica onde trabalhava. Área de especialidade dentro da medicina veterinária. Como todas as respostas estavam certas, a enfermeira passou à fase seguinte.

— Altura?

— Um metro e sessenta e dois.

— Número que calçava?

— Trinta e seis e meio.

— Sinais de nascença?

— Um pequeno sinal por cima do lábio, do lado esquerdo; um sinal ao fundo das costas, do lado direito; e um sinal na omoplata esquerda, que parecia um coração.

Mais uma sucessão de perguntas. A cicatriz no queixo, de quando caiu de bicicleta. A cicatriz no braço, feita por aquele gato siamês indomável. A cor preferida. Vixen, o nome da cadela com que cresceu e que a fez querer ser veterinária. As comidas que adorava e as que não suportava. A hipersensibilidade ao veludo, que lhe provocava arrepios. A fobia a centopeias; mas apenas a centopeias, nenhum outro insecto lhe causava impressão. Os desportos que praticou: a ginástica, o andebol, o segundo lugar nas regionais de natação, aos 14 anos, de que tanto se orgulhava. A paixão recente pelas danças de salão, embora se achasse demasiado descoordenada para aquilo. Os brincos com libelinhas que adorava usar. O livro da sua vida, que lia, pelo menos, uma vez por ano. A série que achava lamechas, mas que não conseguia parar de ver. O deslumbramento infantil quando via balões de ar quente. Uma vez mais, o homem respondeu correctamente a tudo e por isso a enfermeira avançou para a próxima ronda.

— Onde é que nos conhecemos?

— Numa discoteca chamada Duradouro.

— Como é que começámos a falar?

— Ela foi contra si e entornou um copo de cerveja na sua roupa.

— E o que é que ela fez depois?

— Pediu muita desculpa, foi buscar guardanapos e começou a limpar a sua camisola, e você reparou que ela ficou muito corada, enquanto o fazia.

De seguida perguntou sobre o primeiro encontro. O restaurante peruano. O cinema. O incidente com as pipocas. O primeiro beijo. A primeira viagem. A vez em que se perderam na serra. O mergulho com tartarugas. O ano e mês em que foram viver juntas. O nome que chamavam uma à outra. As partidas que detestava que ela lhe pregasse, mas que se divertia a contar aos amigos. A forma como ela a reconfortava, quando um dos doentes da unidade de paliativos morria. O modo como o seu lábio tremia, do lado esquerdo, imediatamente antes de chorar. A insistência dela em se abraçarem longamente, depois das discussões. As carícias atrás das orelhas, que quase a faziam ronronar. Os pés frios que se entrelaçavam nos seus.

Era a primeira vez que o homem chegava tão longe. Nunca tinha concluído a terceira ronda de perguntas. Enganava-se sempre num pormenor ou respondia de forma incompleta; mas não desta vez. Desta vez, até se recordara da brincadeira que tinham entre elas, por causa do sinal na omoplata, sobre Marta ter dois corações.

Será que ele finalmente compreendia?

Depois de um momento de ponderação, a enfermeira decidiu avançar para a derradeira fase.

— Descreve-me o que aconteceu no dia 31 de Julho de 2022.

Apesar de ter respondido com rapidez a todas as questões prévias, nesta pergunta demorou mais tempo.

— Nesse dia, um Domingo, a Marta saiu de casa às sete e meia da manhã, para a sua caminhada habitual.

— Só para a caminhada?

— Não, não! — replicou prontamente, assustado. — Primeiro para a caminhada, mas mais tarde iria comprar comida ao supermercado, para fazer um chili vegetariano, porque vocês tinham convidado os vossos pais para almoçar.

— Continua.

— Por volta das sete e cinquenta, quando ela atravessava a Rua José Fontes, um carro que virava para essa rua… atropelou-a.

— E o que aconteceu ao corpo dela?

— Foi projectado para a frente e… e o carro não conseguiu travar e… passou-lhe por cima.

— E que danos sofreu?

O homem hesitou.

— Descreve os danos que o corpo dela sofreu.

— Um traumatismo craniano, uma fractura exposta da tíbia e sete costelas fracturadas, uma delas que perfurou o pulmão direito.

— E foi levada para o hospital quanto tempo depois?

— Trinta e nove minutos depois.

— E o que aconteceu no hospital?

—  As lesões eram graves e ela já tinha perdido muito sangue e por isso não a conseguiram salvar. Morreu às 10h22.

 —  Exactamente: quando chegou ao hospital já era demasiado tarde para a salvar. — disse a enfermeira, fazendo um enorme esforço para manter a objectividade. — E diz-me: — descruzou a perna e dobrou-se para frente — o que fez o condutor quando a atropelou?

O homem engoliu em seco.

— Fugiu.

— Podia ter parado para ver como ela estava ou, pelo menos, ter chamado imediatamente uma ambulância, mas não, decidiu fugir. Passou com um carro por cima de uma pessoa, esmagou-a, e foi-se embora. E porquê?

—  Porque… porque vinha da noite e tinha bebido uns copos.

 — Porque vinha da noite e tinha bebido uns copos! —  Agora falava alto e com raiva. —  E como era muito cedo e não havia pessoas na rua, não houve qualquer testemunha, e o condutor, o cobarde, com medo do que lhe poderia acontecer, deixou uma mulher gravemente ferida, a minha mulher, a melhor pessoa do mundo, a esvair-se em sangue no meio da estrada! Certo?!

—  Sim…

—  E uma vez que ninguém sabia quem ele era, o assassino esteve um ano e dois meses a viver a sua vidinha descontraidamente, sem consequências, a pensar que se tinha safado, a trabalhar como se nada fosse, a rir e a divertir-se com a sua família e amigos…

 — Eu não me estive a divertir! Quando vi na televisão que ela tinha morrido, fiquei um mês sem dormir! Não houve um único dia que não me lembrasse do que fiz, que não me arrependesse de ter fugido! Por isso é que lá voltei um ano depois! Por isso é que fui deixar o ramo de flores! Queria prestar-lhe uma homenagem, pedir-lhe desculpa por não…

— Pedir-lhe desculpa?! Pedir-lhe desculpa?! Ela está morta! Morta! Morta! —  Levantou-se da cadeira, debruçou-se sobre ele e agarrou-lhe o queixo. — E não ouses falar de sofrimento! Tu não sofreste nada! Os pais dela sofreram! Os amigos dela sofreram! Eu sofro! — Tinha os olhos injectados de sangue e as veias pulsavam no pescoço.

O homem começou a chorar, convulsivamente.

— Desculpem! Desculpem! Desculpem! Mate-me! Por favor, mate-me! Eu não mereço viver! Mate-me!

A enfermeira largou o queixo dele e endireitou-se. Fechou os olhos por momentos, controlando a sua ira.

— Já te expliquei que só te mato quando conheceres a Marta tão bem quanto eu a conhecia. Quando ela significar tanto para ti, quanto significava para mim. Quando a dor de não a teres conhecido for tão insuportável quanto a dor que eu sinto todos os dias por já não a poder ver, ouvir, tocar, por já não a ter na minha vida.

— Mas eu respondi a tudo! Eu respondi a tudo!

— Sim, mas de forma fria e metódica, como se isto fosse um exame qualquer que tens de passar. Tu ainda não desejas tê-la conhecido. Ainda não sentes a falta dela. Ainda não percebes o que é o mundo, a vida, sem a Marta. Mas isso mudará. Um dia saberás.

O homem fechou os olhos e o choro intensificou-se, o seu corpo soluçando de culpa e desespero.

—  Amanhã tentamos novamente.

Caminhou até à porta da sala e, quando estava prestes a sair, o homem gritou:

— Por favor, não ponha já a gravação! Deixe-me dormir uma horas sem a ouvir! Basta três horas! Ou uma hora! Por favor! Senão enlouqueço! E se enlouquecer, como é que vou sentir a falar dela? Para que serviu tudo isto?

A enfermeira parou. Sem se virar, e agora num tom despojado de emoção, respondeu-lhe.

— Se enlouqueceres, vou buscar alguém da tua família para te substituir. Mulher, pais, filhos, primos, não me interessa; alguém tomará o teu lugar. Alguém terá de saber o que eu sinto, alguém terá de saber o quão insuportável é, para mim, viver sem ela.

Saiu do quarto e trancou a porta. Segundos depois, o projector accionou-se e as fotografias e vídeos de Marta regressaram ao tecto, exactamente por cima do olhar do homem. Ao mesmo tempo, das colunas atrás da cama, voltou a soar a gravação da voz da enfermeira, no preciso momento onde tinha parado antes dela entrar.

«… já em pleno voo, com a luz do amanhecer da Capadócia como pano de fundo, mesmo à filme. Ela chorou, abraçou-me, beijou-me, ficou radiante, disse-me que não imaginava melhor cenário do que aquele. Rimo-nos as duas quando as outras pessoas que iam no balão começaram a aplaudir… Decidimos organizar um almoço logo no fim-de-semana a seguir, para contarmos aos nossos pais. Ela faria o seu famoso chili vegetariano, claro. Nos dias seguintes, a Marta não conseguia parar de olhar para o anel, era como se mais nada…»

 

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