Pés a andar

Se existe algo que nunca compreendi é a razão pela qual, quando alguém nos quer dizer para irmos a um sítio e voltarmos rapidamente, profere a expressão «vai num pé e vem no outro». É que, meus amigos, esta expressão não faz qualquer sentido. Aliás, se a analisarmos devidamente, concluiremos que é o exacto oposto daquilo que se está a tentar dizer. Senão vejamos: ir «num pé» a um qualquer sítio é ir ao pé-coxinho, o que significa que qualquer distância que percorramos vai demorar o dobro do tempo do que se formos a andar, normalmente, com os dois pés.

Para além desta ausência de sentido, é também importante salientar a figura de idiota que fazemos na rua, ao andarmos a saltitar ao pé-coxinho. Especialmente se nos cruzarmos com alguém e lhe tivermos de dizer, enquanto saltitamos de forma ridícula,  que agora não podemos estar à conversa porque temos de ir rapidamente a um sítio.

Vamos então supor que, mesmo apesar de demorarmos o dobro tempo e de fazermos figura de atrasado mental, lá conseguimos chegar ao destino pretendido. Coloca-se agora a questão, mais complicada, de regressarmos ao local de partida. Mais complicada porque temos de voltar ao sítio onde estávamos inicialmente «no outro pé». Ou seja, temos que regressar ao pé-coxinho num pé que não é o dominante. E, parecendo que não, isso torna o regresso praticamente impossível.

Eu tenho a forte convicção de que neste preciso momento, por Portugal inteiro, há pessoas que estão há anos a tentar regressar a um sítio qualquer. Aliás, muitos dos sem-abrigo, são apenas pessoas que não aguentaram e tiveram que desistir de voltar a casa. Tudo porque alguém lhes disse para irem num pé e voltarem noutro.

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P.S. –  E já agora: «pé-coxinho»?! Porquê «jogo do pé-coxinho»? Já alguma vez viram um coxo a andar dessa forma? Eu cá nunca vi. Já vi coxos a mancar mas nunca vi nenhum a locomover-se aos pulinhos. Na minha opinião, em vez de «jogo do pé-coxinho», deveria chamar-se «jogo da perna amputada». Não, esperem, não chega, porque alguém com uma perna amputada pode sempre pôr uma prótese, andar de muletas ou de cadeira de rodas… Já sei! Devia chamar-se «jogo da perna amputada numa pessoa sem condições económicas para adquirir equipamento médico de compensação da mobilidade». Isso sim, faz sentido. Não tem nada que agradecer, leitor. Pensar nestas coisas é a minha função. ■

 

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