mulher bonita

Após amarrotar o copo de plástico e, educadamente, arremessá-lo para o chão, enceto em mais uma dessas aventuras hercúleas que é ir buscar uma bebida, a um bar, à uma e meia da manhã. Inicio então uma sessão de dribble de pessoas, até que finalmente chego ao balcão do bar, onde sou obrigado a «estacionar» na terceira fila de pessoas que estão à espera para pedir. Enquanto aguardo a minha vez, decido perscrutar o bar com o olhar, numa autêntica pantomina do movimento de um farol. Por entre os inúmeros bêbados e posers, reparo nela.

Não sei como não a tinha visto antes. A minha atenção fica totalmente concentrada naquela rapariga, ignorando todos os estímulos circundantes. O meu olhar, absolutamente detido nela, assemelha-se ao de uma criança que contempla algo de magnífico pela primeira vez. «E tu, vai ser o quê, pá?», pergunta-me o barman pela terceira vez consecutiva, enquanto tenta captar a minha atenção. «Anh… Hmm… É um Malibu-7Up, se faz favor!», replico. Ele, em uníssono com todas as pessoas que me rodeiam naquele preciso momento, solta uma sentida gargalhada. Mas isso agora não me interessa, pois a única coisa em que consigo pensar é naquela inebriante visão. Assola-me a incontrolável necessidade de vislumbrar aquela rapariga novamente.

Enquanto o alquimista reúne e prepara todos os ingredientes necessários para a poção que lhe encomendei, decido olhá-la uma vez mais. Surpreendentemente, este segundo olhar desperta-me exactamente a mesma reacção que tive quando a vi pela primeira vez, há instantes atrás. Impressionante. E, da mesma maneira, não o consigo desviar por um nanossegundo que seja. É como se, naquele instante, mais nada existisse para além dela. Eis que senão quando sinto nas costas aquela palmada cúmplice de um amigo meu, ao mesmo tempo que me informa: «’Tás a dar uma granda cana, miúdo…» Por breves momentos fico assustado, mas depois, assumindo uma postura confiante e decidida, respondo-lhe: «Quero lá saber se estou a dar cana! Tens de concordar que não é todas as noites que se vê uma gaja com dois cotos num bar!»

NOTA: É fulcral que fique bem claro que este texto é ficção. O autor nunca pediu um Malibu-7Up num bar. Como todos sabemos, pedir essa bebida é um dos critérios de diagnóstico de «Larilas» publicados pela OMM (Organização Mundial de Machos). ■

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*
*