multidão

Eles estão entre nós. São seres que, como eu e o leitor, respiram, comem e falam. Têm os seus sonhos e ambições, riem e choram, são capazes do bem e do mal. Fisicamente, assemelham-se a qualquer um de nós. No meio da multidão, nem mesmo o olhar mais treinado é capaz de os distinguir de qualquer ser humano. A única característica que os diferencia de nós está relacionada com o seu discurso e não tem a ver com a velocidade ou musicalidade do mesmo, nem tão pouco com o tom ou timbre de voz utilizados. Já entendeu a quem me estou a referir, não é verdade? Não, não estou a falar dos jogadores de futebol. Mas percebo perfeitamente o que levou o leitor a pensar nisso.

Refiro-me áqueles seres que, quando querem dizer a palavra «tóxico», a proferem da seguinte forma: «tóchico». Estas criaturas são apenas detectadas após alguns minutos de uma conversa aparentemente normal quando, sem aviso prévio, proferem a referida palavra dessa forma, retirando-lhe toda a sua dignidade. É o suficiente para deixarmos imediatamente de prestar atenção ao conteúdo da dita conversa e esquecermos tudo o que nos foi dito antes por esse ser.

Primeiro, achamos que não ouvimos bem. «Foi impressão minha», pensamos, «ele não pode ter dito tóchico». Mas depois, eis que a criatura repete uma vez mais a tão malfadada palavra. Então, apercebemo-nos que não foi impressão nossa, que a palavra foi mesmo proferida daquela maneira desfigurada, mas queremos acreditar que essa criatura talvez se estivesse apenas a referir ao diminuitivo de alguém chamado António Francisco. Mas não. Nada disso. Analisamos a utilização contextual da palavra e, numa mescla de embaraço e ódio por quem a proferiu, constatamos que «tóchico» se referia mesmo a um adjectivo que caracteriza algo que é venenoso.

Claro que na maior parte das vezes não corrigimos a criatura. Não por recear que ela se possa sentir ofendida, mas sim porque sabemos que existe uma elevada probabilidade de nos responder «pode-se dizer das duas maneiras». E isso, meus amigos, faz com que eu me transforme num Hulk com impulsos homicidas.

Isto é um espécie singular de «pessoas» (não sei se podem ser consideradas como tal) que modifica a fonética das palavras a seu bel-prazer. E isto não pode ser assim. Não podemos modificar a forma como proferimos as palavras conforme bem nos apetece. Não é só acordar e decidir que hoje, sempre que quiser chamar uma destas criaturas de «imbecil», vou chamá-la de «imbécil». É que, parecendo que não, o impacto não é o mesmo.

Assim, peço a leitor que, uma vez mais, contribua para melhorar o estado da humanidade. Sempre que estiver a falar com alguém e, a meio da conversa, o outro interlocutor proferir a pseudopalavra «tóchico», não o corrija. Em vez disso, retire uma caneta do bolso e, delicadamente, espete-a na laringe da criatura. Apenas e só desta forma conseguiremos travar esta epidemia de «imbécis». ■

 

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