amigos a conversar

Parece-me existir um grande equívoco junto dos meus amigos e conhecidos, que se prende com o conteúdo das conversas que tendem a manter comigo. De forma totalmente inconsciente, creio ter-lhes incutido a ideia de que todas as temáticas de conversação por eles introduzidas são do meu interesse. Mas a verdade é que nem todas são. Aliás, diria mesmo que apenas uma escassa minoria dos assuntos que me são apresentados consegue manter-me interessado por mais de cinco segundos.

É pois, neste sentido, que resolvi disponibilizar aos meus amigos e conhecidos – ou mesmo a qualquer outra pessoa que possa vir a privar comigo – uma lista de alguns tópicos de conversa que eu não quero que discutam comigo. Creio que, uma vez clarificada esta situação, a nossa convivência será muito mais saudável, pois trará vantagens para ambos os interlocutores: eu não terei mais de fingir que estou interessado naquilo que vocês estão a dizer quando, na verdade, estou entediado ao ponto de desejar ser vítima de um drive-by; e vocês evitarão o ridículo de revelarem as vossas vidinhas monótonas e desinteressantes.

Aqui segue a lista:

– Sucessos e/ou problemas profissionais. Quero apenas saber a vossa profissão e que funções desempenham no âmbito da mesma, para o caso de me poder dar jeito. Não quero saber mais nada. A não ser que a vossa profissão seja vitrinista no Red Light District. Aí tudo bem, eu não me importo de ouvir os detalhes do vosso quotidiano.

– Carros que compraram. Estou-me a marimbar. O carro é vosso, não é meu. E não, não terei mais interesse se se tratar de um topo de gama. Terem um topo de gama não significa absolutamente nada para mim e – não sei se têm noção disto – também não vos transforma em alguém interessante. No entanto, se compraram o carro para me oferecer, então aí tudo bem, podem falar à vontade sobre o quão fabuloso é.

– Doenças. Não me interessa minimamente se estão com constipados, com diarreia ou se vão ser submetidos a uma cirurgia ao joelho. Falem comigo apenas se tiverem uma doença terminal, só naquela de eu me despedir de vocês, que é para depois não ficar com problemas na consciência. E, mesmo assim, poupem-me os detalhes mais nojentos.

– Filhos. Não quero saber o quão maravilhosa é a paternidade nem tão pouco pretendo ouvir qualquer informação sobre os vossos filhos.  Quanto às vossas filhas, apenas e só quero ouvir falar delas se for para me dizerem que engravidaram, estão na prostituição ou se – e aqui terão toda a minha atenção – tiverem mais de dezoito anos e forem ninfomaníacas com um fetiche particular por homens mais velhos.

– Viagens que fizeram. As vossas férias ou luas-de-mel são todas irrelevantes para mim. Não tenho o mínimo desejo de saber os sítios paradisíacos por onde andaram nem o quanto se divertiram. Só quero que me contem algum episódio das vossas viagens se vos tiverem roubado toda a bagagem, se vos tiverem clonado o cartão de crédito ou se vocês, sem se aperceberem, copularam com uma shemale em Bangkok.

– Outros tópicos sem interesse: roupa, depilação, o vosso desempenho sexual, astrologia, mobiliário, os exercícios que fazem no ginásio, multas que receberam, pratos que confeccionaram na Bimby.

Espero que tenham ficado devidamente esclarecidos. E se depois de terem lido os tópicos acima descritos me querem perguntar «Se não posso falar sobre nada disso, então sobre o que é que é suposto falar contigo?», então o melhor é mesmo não falarmos de todo. Nunca mais. Novamente, será uma situação vantajosa para as duas partes: eu serei mais feliz pois não terei de ouvir as vossas aborrecidas conversas da chacha; e vocês evitarão ter de contar a história, através de linguagem gestual, de quando um tipo que conheciam vos rasgou as cordas vocais com uma chave quando vocês lhe estavam a contar sobre a promoção que tiveram na empresa. ■

 

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